Voando sobre a realidade

06/07/2006

Plenitude

O silêncio…
É certo que neste lento pôr-do-sol, o silêncio se ouve com mais força. Mas não é o silêncio.
A tranquilidade…
Sob a lua rompante, a natureza descansa. Alguns morcegos esvoaçam por sobre o pátio. A água corre no tanque, quase imperceptível. Tudo, na natureza, parece ocupar o seu sítio próprio. Mas não é a tranquilidade.
A paz…
De repente, dentro e fora de mim, tudo é harmonia. Neste momento preciso, tudo bate certo. Tudo tem razão. Mais, nada precisa de ter razão, porque o coração sente a plenitude. Mas não é a paz.

Não sei o que tem este lugar. Só sei que é o meu lugar. Aquele em que tudo faz sentido. Aquele em que consigo reunir tudo o que há em mim. Sem dramas, sem ansiedades. Plenitude, talvez seja isso, o que me enche neste velho pátio da casa ancestral dos meus antepassados. Aqui vivo eu, aqui vivem todos os meus fantasmas, aqui vivem as almas de Santa Marinha.

Talvez um dia me possam trazer para aqui para morrer. Talvez um dia possam espalhar as minhas cinzas por estes metros que a minha vista alcança. Porque mais do que qualquer outro sítio do mundo, eu pertenço aqui.

Estivemos quase...

Estivemos quase na final do Mundial. O estigma do “quase” persegue-nos. Vamos, quase sempre, morrendo na praia…

1. Não me entusiasmou a equipe portuguesa. Sobretudo não me entusiasmou o “pragmatismo” que leva a não arriscar. Não me entusiasmou uma equipe que joga na defesa e no meio campo mas que não é capaz de delinear o ataque. Não me entusiasma uma equipe que não tem fome de golo.
2. Tive um secreto prazer em ver eliminada a Inglaterra. (Des)Amores antigos. Teria tido um prazer forte em ter eliminado a França. Terei gosto se conseguirmos vencer a Alemanha. Declaradamente, o meu anti-europeismo vem à superfície nestes momentos de febre do futebol. Futebol em que se projectam os sentimentos e as frustrações de cada um. O espelho da condição humana…
3. O seleccionador nacional foi sempre um homem polémico. Amado por uns, contestado por outros. À medida que as vitórias se acrescentavam, obteve quase a unanimidade. Hoje, no rescaldo da derrota, vêm ao de cima as contestações. Tímidas, ainda. Mas evidentes. A opinião pública é tão frágil!

Acabou a febre do Mundial. Finalmente vamos poder falar e discutir outras coisas. Já nos podemos voltar a preocupar com as questões nacionais, com as tensões internacionais, com a subida do custo do petróleo. Questões de somenos que vão passar a ocupar a galáxia da comunicação. E nas quais a nossa pequenez não nos vai possibilitar protagonismos.
Quantas bandeiras restarão nas janelas das casas portuguesas?

14/10/2005


Começaram os trabalhos da ExpoBrasil desenvolvimento local

Entre comunicações, oficinas e painéis, foram 29 os momentos apresentados pelo Programa da ExpoBrasil ao longo de quinta-feira. Uma oferta diversificada de temas e de interesses que fazem da Expo uma permanente roda viva. Pelo meio ficam os encontros, reencontros e descobertas de gente vinda de todo o lado, ansiosa de mostrar o que está a fazer e de descobrir os pontos de contacto que pode estabelecer com os restantes presentes.
A Agenda 21 Local, Juventude e desenvolvimento local, o Microcrédito, o Comércio Justo e Solidário (V Seminário internacional), o Combate à Pobreza, Dinâmicas de grupo, Comunicações, Desenvolvimento Local e Turismo, Tecnologia Social, Novas institucionalidades para o desenvolvimento local, Meio Ambiente, Economia Solidária; estes alguns dos temas que perpassaram pelas diversas salas do Centro de Congressos do Ceará.
Mas é sempre nas esquinas do encontro que a festa acontece. Comigo aconteceu no reencontro de Everardo Lopes, um animador cultural de longa data, uma personalidade ímpar e um comunicador nato. Conheci-o em Belo Horizonte, numa das suas intervenções da ExpoBrasil abordando o tema Cultura e Desenvolvimento Local. Obriguei-me a esperar por ele e cumprimentá-lo tão entusiasmado ficara com a comunicação. Quase não o reconheci. Mas depois de o ouvir falar apaixonado da sua campanha pela paz e do sonho de introduzir a luta pela paz na pauta das intervenções sociais e do desenvolvimento local, vieram à memória os bons momentos já vividos. Falámos sobre a paz, sobre o desenvolvimento local, sobre a violência nos nossos dois continentes. Descobrimos as afinidades de pensamento e de intervenção. E reforçámos no reencontro a força que nos move para trabalhar por causas e para as pessoas.
Afinal, esta é a grande riqueza da ExpoBrasil.

13/10/2005

Inaugurada a ExpoBrasil de Desenvolvimento Local

Foi inaugurada ontem, ao fim da tarde, a 4ª edição da ExpoBrasil de Desenvolvimento Local, que este ano tem lugar no Centro de Convenções do Ceará, em Fortaleza.
Presidiu à cerimónia o Secretário do Desenvolvimento Agrário do Estado do Ceará, em representação do Governador do Estado. Presentes ainda o Secretário da Economia da Prefeitura de Fortaleza, que fez as honras da casa. Mas a ampla mesa de abertura sentava representantes dos organismos financiadores do evento, entre os quais o do Banco do Nordeste, a Electrobras, a Fundação Kelog e o SEBRAE. Todos unânimes em enaltecer a iniciativa e a reflexão que ela permite na abertura de novos caminhos para o desenvolvimento das populações. Desenvolvimento local, desenvolvimento sustentável, participação cidadã, envolvimento da sociedade civil foram conceitos expressos pelos próprios financiadores, comprometidos com o imenso público – cerca de 1500 participantes – presente no grande auditório.
E como os brasileiros tão bem sabem fazer, a sessão de abertura acabou com um sarau musical. Não foi tão importante assim a qualidade do espectáculo. Mas ninguém pode ficar indiferente quando é apresentado um grupo como o de Tamboril, que declara a sua emoção por, depois de 6 horas de viagem em autocarro, poder actuar pela primeira vez perante uma plateia tão grande e representando todo o Brasil.
E a ExpoBrasil é isso mesmo – à informação e reflexão que possibilita há que somar as emoções. As emoções da partilha, as emoções da fé, da crença na possibilidade de construir um mundo melhor, de ser protagonista de um futuro.

Brasil / Fortaleza / 2005 / Dia 1

Hoje é feriado no Brasil. Dia de Nossa Senhora da Aparecida e Dia da Criança segundo me informou o motorista de táxi, seu Juarez, cearense de gema ao volante do seu VW a gás natural. Nos cruzamentos, bandos de crianças abeiram-se dos carros, de mão estendida. Juarez faz-lhes uma pequena festa na cabeça, sem mais, enquanto eles se afastam pressurosos.
Seu Juarez conduz-nos ao centro de Congressos do Ceará, onde terá lugar a ExpoBrasil de Desenvolvimento Local. Parados num cruzamento, temos defronte de nós um imenso arranha-céus abandonado, estrutura toda em tijolo, assustador cadáver urbano. O motorista explica – “aqui no Brasil empreiteiro vai construindo, vendendo apartamento e gastando o dinheiro. Quando já não há mais abandona a obra e o prejuízo fica para os que pagaram os apartamentos”. Afinal um fenómeno universal, talvez aqui mais frequente. E os cadáveres imponentes são visíveis em Fortaleza. E mostram a péssima construção que por aqui se faz.
Com o semáforo aberto, o carro avança. De repente, o impacto e o choque. O carro que vem atrás acaba de bater no táxi. Aguarda-nos longa demora, é o que de imediato imaginamos. Seu Juarez sai do carro e vê os estragos. O condutor que bateu, num jeep robusto, começa +por dizer que não bateu. E de facto, o carro não apresenta uma beliscadura. Mas o táxi tem uma óptica partida e o para-choques amolgado. A conversa corre mais por silêncios do que por altercações. Vê-se o desagrado do culpado e a trentativa de se ver livre da questão, o mais depressa possível. Invoca argumentos: você travou de repente, eu respeitei a distância regulamentar, eu não bati. Mas a evidência é outra. Seu Juarez aponta a matrícula da viatura que lhe bateu. E, pelos vistos a identidade do condutor e a residência.
Grita alto: “patrão, vamos embora”. Pergunto-lhe – como se resolve uma questão destas no Brasil? Há seguro?
A resposta é clara. “Não, mais de 90% dos carros circulam sem seguro. A gente compra carro e depois fica sem dinheiro para pagar o seguro.” Então como vai resolver o assunto? “A gente resolve isto na base da conversa. Quando for a casa dele, se ele não aceitar pagar o prejuízo, então eu volto um dia e ponho o meu carro à frente dele e obrigo ele a bater-me. Ele vai acabar por pagar.” A justiça por mãos próprias.

21/08/2005

Indignação

Viajei recentemente entre Vila Real e Ribeira de Pena. De férias, tinha ouvido falar de um grande incêndio no Parque Natural do Alvão que, por ironia, se declarava extinto nessa manhã. Dizia a rádio que as chamas haviam alastrado para lá do Parque, mas não localizara a região.
De viagem, a partir de Vila Real e até Vilarinho da Samardã, viajei entre ruínas de carvão. Tudo negro, tudo ardido a perder de vista, de um e outro lado da estrada, por mais de 10 quilómetros.
Caso único? Infelizmente não, um pouco por todo o país, a norte e no centro, poderíamos falar de situações idênticas.
Nesse mesmo dia, indo e vindo, localizei no horizonte vários focos de incêndio. Que alastraram rapidamente. O dia estava quente mas nada, nada justificava aquele proliferar de focos de incêndio. Em Vila Real os Bombeiros aceleravam na estrada, de um lado para o outro, no desespero de atalhar os fogos no início. No ar, um Canadair e vários helicópteros evoluiam no combate às chamas mais volumosas. Em qualquer miradouro paravam carros para apreciar a evolução das chamas e dos aviões.

Que país é este em que vivemos, que insanidade é esta que nos atacou? Como é possível continuar a atear o fogo impunemente? Como é possível "gozar" o panorama do combate insano às chamas que deflagram? Como é possível fazer do fogo o espectáculo dos nossos meios de comunicação?

Indignemo-nos pois!
Sejamos severos. Cortemos de vez com os interesses económicos que estão a viver do fogo!
Sancionemos moralmente aqueles que, de uma forma fútil ou intencional, se transformam em incendiários!
Acabemos com a impunidade.

10/07/2005

Sete sapatos sujos

Entre os meus sites de visita frequente está o do Expresso África, que me dá uma panorâmica informativa dos países de língua portuguesa. Lá procuro, com mais curiosidade, notícias de Cabo Verde e de Moçambique. A partir deste site comecei a aceder aos links de jornais digitais nacionais. Um deles é o Zambeze onde ontem encontrei, na página “Documentos”, um texto de Mia Couto. Trata-se de uma oração de sapiência proferida na abertura do ano lectivo do ISCTE e chama-se “Os sete sapatos sujos”. Aborda a questão da pobreza pelo lado interior, com África como referência. Li o texto com sofreguidão. Está bem escrito ou não fosse Mia Couto um grande escritor. É de uma simplicidade comovente, não se enredando nas malhas da erudição. É a voz do bom senso que todos partilhamos.

Alinhei os sete sapatos sujos. Servem-me (servem-nos) perfeitamente. Em minha casa, na minha aldeia, no meu país. Eles aí ficam para vos desafiar à leitura completa do texto de Mia Couto:
Primeiro sapato: a ideia de que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vítimas.
Segundo sapato: a ideia de que o sucesso não nasce do trabalho.
Terceiro sapato: o preconceito de que quem critica é um inimigo.
Quarto sapato: a ideia de que mudar as palavras muda a realidade.
Quinto sapato: a vergonha de ser pobre e o culto das aparências.
Sexto sapato: a passividade perante a injustiça.
Sétimo sapato: a ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros.

Sete sapatos sujos. Que servem para Mia Couto dizer que “na realidade só existe um modo de nos valorizarmos: é pelo trabalho, pela obra que formos capazes de fazer”.

Como nós estamos precisados de limpar o nosso calçado!

Nota: Para ler o texto integral de Mia Couto, aceder a http://www.zambeze.co.mz/zambeze/artigo.asp?cod_artigo=165162