Voando sobre a realidade

31/10/2003

Sinais de civilização

Hoje, percorrendo as ruas da vila a caminho do restaurante dei de caras com um sinal evidente da modernidade comportamental da minha terra.

A minha ligação ao mundo rural não foi imediata, nem foi fácil. Lembro-me de, em jovem, não conceber sequer a possibilidade de viver na aldeia. Perante mim colocava-se, então, a perspectiva de isolamento e de limitações inerentes aos pequenos centros rurais, onde nada se passava. Várias vezes terei dito – penitencio-me por isso – que a aldeia era uma “autêntica pasmaceira”.
Com a passagem dos anos, dei comigo a confrontar-me com outras pasmaceiras, bem mais provincianas porque pretensiosas. A evolução tecnológica e os circuitos de comunicação também ajudaram a alterar o meu comportamento relativamente ao “campo”, onde passei a sentir-me tão perto da civilização como noutro sítio qualquer.
Aprendi a apreciar coisas simples e pequenas, que só o mundo rural nos dá. A paisagem – cores e formas – amplas e intensas que nos fazem relacionar directamente com a natureza. Onde as árvores não estão aprisionadas como nos jardins das cidades, onde os animais são livres e convivem connosco partilhando o mesmo espaço. Onde a cada hora e a cada dia há cheiros novos, cheiros verdadeiros a alfazema e pinus silvestre, tão diferentes daqueles engarrafados em frasquinhos de pôr no ventilador dos carros. Onde as pessoas se cumprimentam ao passar com um alegre “bom dia”, não um simples gesto formal de educação, antes um cumprimento de respeito. Onde as pessoas são solidárias e se ajudam – nos trabalhos do campo, nas tarefas do dia a dia, na doença, na festa.
Aprendi a apreciar milhares de coisas simples que fui redescobrindo. Tornei-me fã desse resíduo de autenticidade. Uma por outra vez fui tendo desilusões. Na minha aldeia, pequenina, as pessoas começaram a aspirar a ser como nas cidades. A pouco e pouco vi o bagaço e o “copo de três” substituído pelo wisky e pela cerveja. Até já temos, a partir do recente Verão, um bar com karaoke. Falta-nos ainda o centro comercial e a escada rolante, mas estou certo que o denodo dos nossos políticos há-de chegar lá. De qualquer maneira, ainda me é possível, com ironia, apresentar aos amigos três evidentes indícios do nosso subdesenvolvimento.
É verdade, acreditem ou não, na minha terra bebemos água sem qualquer tratamento. Sem que isso signifique que bebemos água sem condições, apenas que a nossa água é proveniente de nascentes e, periodicamente testada, apresenta dados que não exigem qualquer tratamento. Imaginem o nosso subdesenvolvimento – ainda bebemos água sem cloro…
Mais, ainda não temos hora de ponta. Já temos montes de sinais, ruas de sentido único. Só ainda não temos semáforos. E, salvo no bendito mês de Agosto em que a população triplica, não há horas de ponta. Imaginem o stress, viver sem engarrafamentos e sem horas de ponta.
Estamos, porém, quase a perder o terceiro índice de subdesenvolvimento. Até há bem pouco tempo não havia problemas de estacionamento. Agora, o centro da vila já nos traz algumas dificuldades. Quando vou tomar o pequeno almoço ao café já tenho que estacionar a 50 metros.

Hoje, ao percorrer as ruas da vila a caminho do restaurante, descobri que este mundo, em perfeita mudança, se aproximou a passos largos da vivência impessoal e indiferente do mundo actual. Onde somos capazes de nos mobilizar por grandes causas universais como as dos direitos do homem, ou da guerra do Iraque, mas passamos indiferentes e quantas vezes revoltados pelos cadáveres humanos que jazem nos passeios e nas soleiras das portas. Hoje, quando ia para o restaurante, dei de caras com um homem novo deitado nas pedras do caminho, completamente encharcado. Provavelmente bêbado. Mesmo em frente de um pequeno supermercado. Mesmo ao lado da farmácia e da praça de táxis. Ninguém se importou, ninguém acudiu. Civilizadamente, deixámo-lo ficar ali, à chuva, “a curtir a bebedeira". Civilizadamente, não nos importámos.

Pela primeira vez senti-me mal na minha aldeia. Porque julguei que ela ainda era guardiã de solidariedade.

Nota – O homem que jazia na estrada estava realmente embriagado. E já é habitual andar caído pelos cantos. Já todos, pelos vistos, se conformam com o facto. Desta vez, só o padre, com quem comentei o facto, teve a coragem de cuidar dele.

frbotelho@mail.telepac.pt

27/10/2003

Os meus vizinhos já não acreditam em mim.

Bem, primeiro entendamo-nos nisto de vizinhos. Perdoem-me mas não estou a falar dessa realidade urbana de pessoas que vivem no mesmo prédio ou em prédios adjacentes. Pessoas que em nada se conhecem, pessoas que evitam conhecer-se numa procura permanente do anonimato social. Não, não me refiro a esses vizinhos, mas sim aos meus vizinhos. Que me conhecem desde menino, que têm sabido da evolução da minha vida e que são suficientemente curiosos para querer saber o que faço. Que me vêm chegar a casa às horas mais desencontradas e nos dias mais esquisitos, sem regra nem norma que se perceba. “Mas afinal o que é que você faz?” Eu desfaço-me em explicações, tentando credibilizar-me. Na cara deles não surge mais do que a incredulidade. “Nã, este não faz nada na vida”, é o pensamento que lhes vejo escrito na face. Às vezes, na brincadeira, digo-lhes que me passeio. Isso, eles entendem, sabem que de vez em quando vou até ao estrangeiro e que, do país, já conheço quase todos os recantos. E sempre que falo nisso, o rosto dos meus vizinhos abre-se num sorriso. Um ou outro ainda me diz – “você é que sabe levar a vida!”.
Mas, declaradamente, já nenhum acredita em mim. Levanto-me tarde, passo pelo café e leio calmamente o jornal, vou ao restaurante e, de resto, passo o dia em casa, fechado. Mesmo que lhes diga que trabalho no computador, sei que acham que eu sou mas é um sorna que passa o dia a dormir. E todos me acham um pouco louco por ter abandonado a função pública. Afinal sempre era um trabalho que se visse, com horários e tudo!
Desisto, já que não acreditam em mim só me resta alimentar o mito de levar bem a vida. E de me passear. Agora faço gáudio em revelar as minhas permanentes deslocações. Por isso, no restaurante onde diariamente como sempre que estou em Ribeira de Pena, faço questão em me despedir “até ao meu regresso…” Da última vez, a empregada riu-se para mim e desejou-me “boas férias”. Disse-lhe que ia a França, a uma reunião. Sorriu-me com inveja e soltou a frase que já começa a ser rotineira – “você é que sabe levar a vida!”.

De repente, veio-me à memória um pormenor da minha infância. Nos primeiros anos da escola um grupo de amigos vinha ter comigo todos os dias e brincávamos no terreiro da casa e no jardim. Era habitual subirmos às velhas japoneiras e inventarmos mil e uma aventuras. Havia também algumas raparigas da nossa idade, afoitas e atrevidas, que faziam questão de nos ultrapassar nas habilidades físicas. Lembro-me que nós rapazes, a despertar para a sexualidade, as incentivávamos a subir às árvores, na secreta esperança de vislumbrarmos algo mais do que o habitual joelho. E mesmo que elas, sabidas, prendessem a larga saia entre os joelhos, sucedia por vezes que os nossos olhos vislumbravam algo mais do panorama das pernas. Nasceu então entre nós um código – sempre que algum descobria as calcinhas, declarava peremptório – “já fui a Vila Pouca”. Uma por outra vez, os olhos conseguiam ver para lá das calças ou da sua ausência. Nesse caso surgia imediatamente o grito glorioso – “já cheguei a Vila Real!”. Na nossa ingenuidade dos sete, oito anos, a aventura máxima da descoberta limitava-se à capital do distrito. Para lá de Vila Real era para nós inconcebível o caminho…

Hoje, os meus limites vão muito para além de Vila Pouca e de Vila Real. Voyeur declarado (principalmente voyeur da vida), continuo curioso, a tentar descobrir os meandros da vida (e da sensualidade). Sim, e já cheguei muito, muito para além de Vila Real. Ultrapassei continentes e continuo a sonhar. Mas, afinal, continuo como em menino – curioso, atrevido e sempre ávido de mais. Por isso não vou parar de conhecer novos horizontes. Por isso não vou deixar de sonhar novos mundos desconhecidos.

Não disse nada disto à empregada do restaurante. Nem vou dizer quando voltar e ela me perguntar como correram as minhas férias. Se calhar nem lhe vou dizer que passei por França no fim de semana. Acho que já não convenço ninguém. Resta-me só observar-me e gozar o mais possível os novos horizontes que o dia a dia me oferece. Secretamente, digo para mim mesmo todos os dias – “Há muito que ultrapassei Vila Real!...”

E fazer roer de inveja os meus vizinhos. Se já não acreditam em mim, ao menos que me invejem…

frbotelho@mail.telepac.pt

22/10/2003

Raízes 2
A lenta construção das raízes


Se para mim é claro, ao fim de meio século, identificar e definir as minhas raízes, não o é tanto relativamente à sua construção. Talvez por isso me saiba bem escrever sobre raízes.

Descobri que o meu mundo era Santa Marinha *, num momento de invulgar revelação. Quando olhamos reflexivamente para a nossa vida, vemo-la construída por momentos vulgares. Raramente conseguimos vislumbrar momentos únicos, em que sentimos que nos excedemos da vulgaridade, momentos em que assumimos a força da criação. Momentos em que assumimos a verdadeira dimensão humana.
Pois tinha eu 22 anos quando se me revelou – como uma evidência clara e distinta – a minha ligação a Ribeira de Pena. Era eu então um jovem oficial do Exército português a quem tinha sido comunicada a mobilização, em rendição individual, para servir em Moçambique no enquadramento de milícias locais. A mobilização significava a deslocação para o teatro da guerra por um período nunca inferior a dois anos. No meu caso, o enquadramento da mobilização significava, mesmo, teatro de guerra. E, como todos os jovens dessa época, era colocado perante a possibilidade concreta da morte ou da incapacidade que a guerra poderia acarretar. O período do serviço militar, nessa contingência, era um intervalo das nossas vidas, uma barreira que supunha o antes e o depois. Não nos atrevíamos a construir sonhos para o depois – vida profissional e familiar raramente eram assumidas antes do cumprimento do serviço militar. Não tinha sido o meu caso, que chegara à tropa já casado e com actividade profissional. Mas é certo que não me atrevia a sonhar o futuro, não antes de regressar são e salvo.

Pois antes de voar para Moçambique, fiz o périplo da família. Para me despedir, assim como quem não sabe se um dia regressa. E vim a Santa Marinha, num fim de semana, despedir-me dos meus primos. E da Casa. E das árvores, das fontes, dos cheiros. Domingo à tarde fui à vila e tomei a camioneta que me levaria de regresso a Braga. A camioneta subiu ronceira a encosta permitindo-me vislumbrar o vale e, a meia encosta, a silhueta imponente da Casa de Santa Marinha. O coração apertou-se e admiti a hipótese de estar a ver pela última vez aquela imagem. As lágrimas começaram a correr-me pela cara e, talvez pela primeira vez, revoltei-me com uma situação que me poderia privar de algo tão significativo para mim. Nesse dia, a partir desse dia, foi para mim claro que nunca mais poderia viver sem Santa Marinha e sem Ribeira de Pena.
Regressei, passados dois anos. E passei a sonhar e a dizer a toda a gente que era em Ribeira de Pena que acabaria os meus dias. Levei ainda 15 anos a descobrir que muito mais do que morrer em Ribeira de Pena, eu queria e precisava era de viver em Ribeira de Pena.

Agora, passado o meio século de vida, descubro o óbvio. Se um dia perder a possibilidade de percorrer com os olhos este vale, morri. Não se podem arrancar impunemente as raízes…


*Santa Marinha é uma das freguesias do concelho de Ribeira de Pena. A Casa de Santa Marinha, um velho solar que pertence à família há cerca de 400 anos.

frbotelho@mail.telepac.pt

14/10/2003

A propósito de brinquedos…

No sábado, em plena Feira da Maçã Bravo de Esmolfe, o Manuel, sobrinho da minha amiga Teresa, enamorou-se pela banca de bugigangas. O Manuel tem 11 anos, vive na cidade, e o facto de acompanhar a tia constituiu uma aventura num mundo diferente. Entre maçãs, febras, artesanato e vinho, o que verdadeiramente lhe chamou a atenção foram as bancas que, à entrada do recinto, vendiam todo um conjunto de artigos plásticos, das capas de telemóveis às televisões portáteis passando, claro, pelos brinquedos. Enquanto eu recolhia elementos sobre a Maçã e a Feira, vi-o impaciente. A tia sugeriu-lhe ir saber dos preços, numa velada promessa de oferta. Passado alguns minutos, o Manuel voltou esbaforido: “Sabes, a televisão custava 50 euros, mas quando virei costas ele baixou logo para 45!”. E falava também de uma pistola muito gira que o homem lá tinha.
Passámos mais tarde pela banca dos brinquedos. E os olhos do Manuel balançaram entre dois encartes que ilustravam “Rambos” e tinham lá dentro uma imitação de metralhadora, outra de besta e um conjunto de munições com ventosa na ponta. Com o assentimento da tia, o Manuel fez a sua opção, e os olhos brilhavam-lhe enquanto acariciava com a mão o plástico.
Como adulto insensível resolvi estragar a festa e manifestar o meu desagrado pelo brinquedo de guerra. Declarei ao Manuel que as armas só servem para matar. “Mas isto é só um brinquedo”, defendia-se ele a medo. “Pois, mas representa um objecto cuja finalidade última é matar” – e resolvi aumentar o meu prestígio dizendo-lhe que já estivera na guerra e que sabia do que falava.
Aí, vi os olhos do Manuel vacilarem. “Estiveste na guerra?”. Falei-lhe da guerra no Ultramar (ou nas Colónias, para contentar todas as sensibilidades…). Enquanto abria o encarte, o Manuel mostrava à evidência a inocência do brinquedo. E a conversa ficou por ali.

Tenho pensado no assunto desde então. E no meu fundamentalismo relativamente aos brinquedos de guerra. De repente, dei comigo a recordar as feiras da minha infância, onde me levavam de tempos a tempos. E do meu fascínio, igualzinho ao do Manuel, pelas bancas que tinham brinquedos. O que me levava a ficar para trás, olhos pegados, condenado ao inevitável ralhete – “olhe se o menino se perdia, o que é que eu ia dizer aos paizinhos!”. E lembrei-me também do que nessa época me fascinava. Antes do mais, os canivetes. Acho que cheguei a sonhar com eles e a imaginar tudo quanto me permitiriam fazer com a tona de pinheiro. Depois os carros, os carrinhos, as camionetas, de madeira ou de lata, brilhantes e coloridos. E ainda as espingardas, com coronha de tábua, cano de latão e que disparavam um projéctil de madeira. E aqueles espelhinhos redondos que tinham nas costas um campo de futebol, duas balizas e um chumbinho a fazer de bola. E as violas, os bombos e as pandeiretas. Canivete acho que ninguém me ofereceu, mas tive nestas minhas idas à feira a oportunidade de regressar a casa com uma camioneta de lata, com um espelho de futebol, com um bombo e com uma espingarda de madeira. Uma espingarda com que fiz pontaria aos patos e às galinhas, e às muitas árvores que rodeavam a casa.

É verdade, Manuel, eu também tive brinquedos de guerra, de outra época, mas com significados idênticos aos do brinquedo que compraste. Mas é certo que a vida, ao permitir-me usar espingardas a sério, num contexto de guerra, me mostraram uma evidência – a finalidade última de uma arma é matar. E optei por não ter armas. E optei por não dar brinquedos de guerra aos meus filhos.

Mas não é pecado nem maldade ter brinquedos de guerra. É só preciso perceber que, a sério, esses instrumentos são perigosos - e matam. Espero sinceramente que a vida to possa mostrar, sem que para isso tenhas necessidade de ir à guerra. E, quando tiveres a minha idade, poderás contar a história da compra do teu brinquedo na Feira da Maçã, em Esmolfe. A que acrescentarás as lições que a vida te der. Fá-lo-às certamente com saudade, como eu a tenho ao relembrar os brinquedos da minha infância.

frbotelho@mail.telepac.pt

12/10/2003

A maçã Bravo de Esmolfe

Só para quem lhe passe despercebida a realidade deste país.
Entre demissões de ministros e solturas de deputados que por insistência de uma comunicação social cada vez mais mórbida se constituem na única realidade do país, eu tive oportunidade de passar umas horas na Feira da Maçã Bravo de Esmolfe.
Desmontemos então este país que não existe (o que não aparece na comunicação social não existe…)
Esmolfe é uma povoação do concelho de Penalva. Que dá o nome a uma das maçãs mais saborosas do mundo. Que é uma variedade autóctone, indígena, nossa. A Maçã Bravo de Esmolfe é um símbolo da nossa identidade. Não é grande como as reinetas, não é redondinha como a golden, não é vermelha como a starking. É assim tipo pêro, amarelo rosada quando madura. E sabe bem que se farta. Durante muito tempo foi abandonada face aos gostos novo ricos de quem só gosta de maçãs normalizadas. Felizmente, alguns paladares delicados decidiram não prescindir dela. Hoje já é certificada. E começa a vender-se cada vez mais.
Todos os anos, no segundo sábado de Outubro, os produtores de Esmolfe juntam-se no Largo de Santo Ildefonso para venderem a sua maçã. Vem gente de todo o lado. O Portugal rural está lá. Tão autêntico e genuíno como a Maçã Bravo de Esmolfe. Um dia vai ser preciso certificá-lo. E colocá-lo na comunicação social. Para que todos acreditem que ainda existe.

frbotelho@mail.telepac.pt

08/10/2003

Hoje, a lua está cheia

Estamos em fase de lua cheia. A luz jorra-me por cima da encosta e deixa, mais do que a claridade, o contraste das sombras. As noites de luar têm um eterno fascínio quando são fruídas no campo. Aliás, só há noites de luar no campo. Quem, na luz feérica das vilas e das cidades, consegue descobrir a lua? Como distinguir a doce claridade da lua da exuberante luz eléctrica dos milhares de candeeiros?
É pois uma paz e uma alegria vislumbrar no céu a bola redonda da lua e descer a minha calçada distinguindo claramente as pedras irregulares. E descobrir fascinado essa coisa única que é ter sombra, uma sombra forte e constante que se agarra a nós e testemunha que existimos.
Mas, mesmo perante a beleza da lua cheia, não sei se lhe perdoo o céu que me rouba. Os milhares de estrelas, só minhas, que polvilham o céu e que me deliciam sempre que me sento no pátio de casa em dia de céu aberto. Para mim, a noite é negra e recheada desses pontinhos de luz que me reportam para o firmamento. Não, não troco o céu de estrelinhas pela luz exuberante dos neons.
Nos últimos tempos, a civilização vai-me perseguindo. Primeiro foi a vila. Encheram-na de candeeiros, iluminaram os edifícios públicos, viraram os focos à nossa igreja matriz. Depois, polvilharam a velha estrada que desce a encosta com enormes postes de luz amarelada. Que continuaram pela nova, na extensão de quilómetros. Ao cimo da calçada, nas oliveiras, já quase não se vê o céu se virados para poente. Não contentes com isso resolveram iluminar a igreja ao lado da casa. Quatro focos debitam toda a noite a luz suficiente para se ver como de dia. E eu vou ter que subir a velha sebe de buxo para tentar encobrir aquele creme Nívea que escorre até ao meu telhado. Agarro-me desesperado ao último recanto onde ainda consigo vislumbrar, exuberante, o meu céu de estrelas.
Um dia destes, gente ligada à autarquia resolveu oferecer-me a suprema benesse de ter um poste de iluminação pública junto à casa. “Você precisa aqui de uma luz”, disseram eufóricos e senhores da atenção. Revoltei-me e proibi-os terminantemente de me alumiarem a noite. Pelo ar estupefacto percebi que não me compreenderam. Se me perdoaram ou não isso não sei. Talvez sim, desculpando-me com a irreverência.
Tenciono resistir enquanto posso. Quero continuar por muitos anos com este prazer solitário de olhar as estrelas, de percorrer a “estrada de Santiago”, de sonhar com outros mundos e de me sentir pequenino num universo infindo. Quero continuar saudavelmente incivilizado.
Hoje a lua cheia inunda todos os recantos do pátio, do terreiro e do jardim. E está tão linda que lhe perdoo não ver as estrelas. E sei que ela me percebe porque, daqui a dias, deixará de novo que elas me visitem e me deliciem.

frbotelho@mail.telepac.pt

02/10/2003

Sobre tertúlias…
Variações à volta de filmes de western.


Hoje em dia já não há tertúlias. À mesa do café e do botequim sucedeu o sofá (Divani ou não) e à amena troca de impressões, o consumo asséptico do ecrã da televisão e do espectáculo das intimidades alheias. Conversar tornou-se não só um acto insólito como um perfeito desperdício. Hoje, quando muito, discute-se futebol, diz-se mal da política e dos políticos e dão-se palpites sobre a bolsa. Já não se enchem salas de labaredas de fumo, já não se bebe absinto, já não se suspira ouvindo ler poesia. E já não se discutem ideias políticas, apenas estratégias de assumir o poder.
Decididamente, hoje em dia, já não há tertúlias.

Nos finais do ano passado decidi reinventar, em Santa Marinha, as tertúlias. Tertúlias bem comportadas, com tema e tudo. Chamei-lhes "Noites da Ribeira" e pretendia com elas discutir o futuro de Ribeira de Pena. Criar um corpo de ideias sobre o futuro do concelho e consensualizá-lo com um grupo de pessoas interessadas e actuantes. Ingenuidade minha. À segunda sessão já se invocava acção. Já se desvalorizava a conversa. Já se alertava para a inutilidade de construir um edifício de ideias. Partimos então para a construção de uma sociedade de investimento de que decidimos, rapidamente, o nome, o capital e o objecto social. No fim, todos contentes, esquecemos por quê, para quê, com quem e em quê intervir.

Ficou-me o amargo na boca. E a certeza de que, com tais interlocutores a tertúlia era impossível. No fundo, ninguém está interessado em pensar. Nesta sociedade padronizada da imagem e da acção, veio-me à cabeça a saga dos westerns de Hollywood, padrão máximo da hegemonia cultural americana. Onde os maus convivem com os bons, para tudo terminar na ponta de uma bala ao pôr-do-sol quente e solitário de uma qualquer cidade do Oeste. E os bons vencem sempre os maus, mesmo que muitas vezes nos pareça que os bons são tão ou mais maus do que os maus.
Pensando nisto e no paralelo com a sociedade em que vivemos, dei comigo a magicar que não me apetece mais ser cawboy. Nem bom nem mau. Decididamente, cada vez me identifico menos com este filme que vejo construir à minha volta. Não me apetece jogar ao Poker, beber whisky ao balcão, atirar no pianista do saloon, assaltar o banco, delirar com o cancan das meninas ou empanturrar-me com feijão. Decididamente, o papel de cawboy cada vez cai menos na minha pele. E os outros cawboys olham-me cada vez mais de soslaio. Impossível de classificar, não dou garantias de desempenhar um papel condigno. Neste filme de Hollywood que é a vida actual, só me resta ser índio. Vestir a pele vermelha, pôr a pena na cabeça, partir para as montanhas, viver em consonância com a natureza e com as minhas próprias ideias. Deixar o sol nascer e morrer no horizonte enquanto a vida corre tranquila e harmoniosa. Sei que, como índio, cada vez me é deixado menos espaço pelos caras-pálidas desta vida. Que tenho que procurar os espaços mais inóspitos e mais rudes para manter a integridade. Mas também sei que, por decisão minha, nunca deixarei que ocupem o espaço da inteligência e da alma. Nesse, poderei sempre manter íntegra a tradição, o sonho e a esperança num mundo melhor.
Para que conste, neste mundo de Hollywood em que se transformou a nossa vida, eu assumi conscientemente o meu papel de índio. Nem cawboy bom nem mau – índio apenas.

De quando em vez, cruzo-me na pradaria com outros índios. Se calha trocamos algumas palavras, com a satisfação de nos reconhecermos índios. Raramente paramos para mais do que a saudação. Num acesso de solidão, resolvi accionar os sinais de fumo e convidar outros índios para conversarmos sobre tudo e sobre nada. Para nos reconhecermos no nosso papel de índios. Para sonharmos que um dia, filhos ou netos, se reconhecerão na originalidade do nosso isolamento.
Hoje, num acesso de solidão, resolvi reinventar mais uma vez a tertúlia. Sem objectivos. Só pelo prazer do encontro. Só pelo prazer de partilhar ideias.
Só pelo prazer do encontro.

frbotelho@mail.telepac.pt



01/10/2003

Raízes I

Nos dois últimos fins de semana fui visitado por parentes. Gente à procura de raízes. Que encontram na memória de uma casa e de uma família um elo das suas vidas.
Isso tem-me feito reflectir sobre o assunto. Tive a felicidade de crescer numa casa com memória. Tive a felicidade de conviver com três gerações, rodeado de histórias. Desde cedo percebi a que espaço e a que conjunto de ideias e de valores pertencia. Muita da serenidade que adquiri ao longo do tempo tem que ver com essa circunstância. Para mim, é estranho que se procurem as raízes, elas sempre estiveram impregnadas em toda a minha formação. E onde estão, afinal, as raízes que tanto buscamos e valorizamos?
No nascimento não estão, seguramente. Pelo menos, no meu caso específico não estão. Nascido em Moçambique, país que abandonei aos 4 anos, filho de europeus, não sinto dentro de mim qualquer ligação especial àquele espaço. Como costumo dizer que não me lembro de ter feito qualquer requerimento para lá ter nascido. Em termos de espaço, todas as minhas recordações têm que ver com Ribeira de Pena e com Braga, os espaços em que mais tempo vivi. Mas é um facto que o espaço de nascimento é, na maior parte dos casos, uma das referências das raízes. Mas só o é quando diz respeito ao “espaço de criação”. Eu sou de Ribeira de Pena porque realmente aqui fui criado. Os espaços-raízes só o são quando estão intimamente ligados à nossa formação e ao nosso crescimento intelectual. Não é de estranhar que todos valorizemos os espaços de infância – foi neles que se moldou a nossa personalidade.
Mas os parentes que me visitaram não vinham à procura deste espaço-criação. Vinham à procura de algo mais subtil e mais indefinido. Vinham à procura de referências do passado. De ambientes e de memórias que os remetem para gerações anteriores, gerações que tiveram a ver com a minha casa. No fundo, vêm procurar na realidade física de um espaço-casa, a corporização de um conjunto de memórias que lhes foram passadas pelos familiares mais directos. Porque as raízes, muito mais do que os espaços, são as memórias. As memórias das pessoas e das vidas das pessoas. E da influência que essas pessoas têm – ou tiveram – nas nossas vidas.
Eu sei que a minha felicidade e a minha serenidade têm muito que ver com este facto de crescer no meio de raízes. Mas também sei que as raízes se constroem e se descobrem no dia a dia. Ou se reconstroem, como no caso dos parentes que me visitaram. E a minha felicidade também tem que ver com esse privilégio de ser, neste recanto da Casa de Santa Marinha, um eremita “guardião de raízes”.

frbotelho@mail.telepac.pt