Sinais de civilização
Hoje, percorrendo as ruas da vila a caminho do restaurante dei de caras com um sinal evidente da modernidade comportamental da minha terra.
A minha ligação ao mundo rural não foi imediata, nem foi fácil. Lembro-me de, em jovem, não conceber sequer a possibilidade de viver na aldeia. Perante mim colocava-se, então, a perspectiva de isolamento e de limitações inerentes aos pequenos centros rurais, onde nada se passava. Várias vezes terei dito – penitencio-me por isso – que a aldeia era uma “autêntica pasmaceira”.
Com a passagem dos anos, dei comigo a confrontar-me com outras pasmaceiras, bem mais provincianas porque pretensiosas. A evolução tecnológica e os circuitos de comunicação também ajudaram a alterar o meu comportamento relativamente ao “campo”, onde passei a sentir-me tão perto da civilização como noutro sítio qualquer.
Aprendi a apreciar coisas simples e pequenas, que só o mundo rural nos dá. A paisagem – cores e formas – amplas e intensas que nos fazem relacionar directamente com a natureza. Onde as árvores não estão aprisionadas como nos jardins das cidades, onde os animais são livres e convivem connosco partilhando o mesmo espaço. Onde a cada hora e a cada dia há cheiros novos, cheiros verdadeiros a alfazema e pinus silvestre, tão diferentes daqueles engarrafados em frasquinhos de pôr no ventilador dos carros. Onde as pessoas se cumprimentam ao passar com um alegre “bom dia”, não um simples gesto formal de educação, antes um cumprimento de respeito. Onde as pessoas são solidárias e se ajudam – nos trabalhos do campo, nas tarefas do dia a dia, na doença, na festa.
Aprendi a apreciar milhares de coisas simples que fui redescobrindo. Tornei-me fã desse resíduo de autenticidade. Uma por outra vez fui tendo desilusões. Na minha aldeia, pequenina, as pessoas começaram a aspirar a ser como nas cidades. A pouco e pouco vi o bagaço e o “copo de três” substituído pelo wisky e pela cerveja. Até já temos, a partir do recente Verão, um bar com karaoke. Falta-nos ainda o centro comercial e a escada rolante, mas estou certo que o denodo dos nossos políticos há-de chegar lá. De qualquer maneira, ainda me é possível, com ironia, apresentar aos amigos três evidentes indícios do nosso subdesenvolvimento.
É verdade, acreditem ou não, na minha terra bebemos água sem qualquer tratamento. Sem que isso signifique que bebemos água sem condições, apenas que a nossa água é proveniente de nascentes e, periodicamente testada, apresenta dados que não exigem qualquer tratamento. Imaginem o nosso subdesenvolvimento – ainda bebemos água sem cloro…
Mais, ainda não temos hora de ponta. Já temos montes de sinais, ruas de sentido único. Só ainda não temos semáforos. E, salvo no bendito mês de Agosto em que a população triplica, não há horas de ponta. Imaginem o stress, viver sem engarrafamentos e sem horas de ponta.
Estamos, porém, quase a perder o terceiro índice de subdesenvolvimento. Até há bem pouco tempo não havia problemas de estacionamento. Agora, o centro da vila já nos traz algumas dificuldades. Quando vou tomar o pequeno almoço ao café já tenho que estacionar a 50 metros.
Hoje, ao percorrer as ruas da vila a caminho do restaurante, descobri que este mundo, em perfeita mudança, se aproximou a passos largos da vivência impessoal e indiferente do mundo actual. Onde somos capazes de nos mobilizar por grandes causas universais como as dos direitos do homem, ou da guerra do Iraque, mas passamos indiferentes e quantas vezes revoltados pelos cadáveres humanos que jazem nos passeios e nas soleiras das portas. Hoje, quando ia para o restaurante, dei de caras com um homem novo deitado nas pedras do caminho, completamente encharcado. Provavelmente bêbado. Mesmo em frente de um pequeno supermercado. Mesmo ao lado da farmácia e da praça de táxis. Ninguém se importou, ninguém acudiu. Civilizadamente, deixámo-lo ficar ali, à chuva, “a curtir a bebedeira". Civilizadamente, não nos importámos.
Pela primeira vez senti-me mal na minha aldeia. Porque julguei que ela ainda era guardiã de solidariedade.
Nota – O homem que jazia na estrada estava realmente embriagado. E já é habitual andar caído pelos cantos. Já todos, pelos vistos, se conformam com o facto. Desta vez, só o padre, com quem comentei o facto, teve a coragem de cuidar dele.
frbotelho@mail.telepac.pt
Hoje, percorrendo as ruas da vila a caminho do restaurante dei de caras com um sinal evidente da modernidade comportamental da minha terra.
A minha ligação ao mundo rural não foi imediata, nem foi fácil. Lembro-me de, em jovem, não conceber sequer a possibilidade de viver na aldeia. Perante mim colocava-se, então, a perspectiva de isolamento e de limitações inerentes aos pequenos centros rurais, onde nada se passava. Várias vezes terei dito – penitencio-me por isso – que a aldeia era uma “autêntica pasmaceira”.
Com a passagem dos anos, dei comigo a confrontar-me com outras pasmaceiras, bem mais provincianas porque pretensiosas. A evolução tecnológica e os circuitos de comunicação também ajudaram a alterar o meu comportamento relativamente ao “campo”, onde passei a sentir-me tão perto da civilização como noutro sítio qualquer.
Aprendi a apreciar coisas simples e pequenas, que só o mundo rural nos dá. A paisagem – cores e formas – amplas e intensas que nos fazem relacionar directamente com a natureza. Onde as árvores não estão aprisionadas como nos jardins das cidades, onde os animais são livres e convivem connosco partilhando o mesmo espaço. Onde a cada hora e a cada dia há cheiros novos, cheiros verdadeiros a alfazema e pinus silvestre, tão diferentes daqueles engarrafados em frasquinhos de pôr no ventilador dos carros. Onde as pessoas se cumprimentam ao passar com um alegre “bom dia”, não um simples gesto formal de educação, antes um cumprimento de respeito. Onde as pessoas são solidárias e se ajudam – nos trabalhos do campo, nas tarefas do dia a dia, na doença, na festa.
Aprendi a apreciar milhares de coisas simples que fui redescobrindo. Tornei-me fã desse resíduo de autenticidade. Uma por outra vez fui tendo desilusões. Na minha aldeia, pequenina, as pessoas começaram a aspirar a ser como nas cidades. A pouco e pouco vi o bagaço e o “copo de três” substituído pelo wisky e pela cerveja. Até já temos, a partir do recente Verão, um bar com karaoke. Falta-nos ainda o centro comercial e a escada rolante, mas estou certo que o denodo dos nossos políticos há-de chegar lá. De qualquer maneira, ainda me é possível, com ironia, apresentar aos amigos três evidentes indícios do nosso subdesenvolvimento.
É verdade, acreditem ou não, na minha terra bebemos água sem qualquer tratamento. Sem que isso signifique que bebemos água sem condições, apenas que a nossa água é proveniente de nascentes e, periodicamente testada, apresenta dados que não exigem qualquer tratamento. Imaginem o nosso subdesenvolvimento – ainda bebemos água sem cloro…
Mais, ainda não temos hora de ponta. Já temos montes de sinais, ruas de sentido único. Só ainda não temos semáforos. E, salvo no bendito mês de Agosto em que a população triplica, não há horas de ponta. Imaginem o stress, viver sem engarrafamentos e sem horas de ponta.
Estamos, porém, quase a perder o terceiro índice de subdesenvolvimento. Até há bem pouco tempo não havia problemas de estacionamento. Agora, o centro da vila já nos traz algumas dificuldades. Quando vou tomar o pequeno almoço ao café já tenho que estacionar a 50 metros.
Hoje, ao percorrer as ruas da vila a caminho do restaurante, descobri que este mundo, em perfeita mudança, se aproximou a passos largos da vivência impessoal e indiferente do mundo actual. Onde somos capazes de nos mobilizar por grandes causas universais como as dos direitos do homem, ou da guerra do Iraque, mas passamos indiferentes e quantas vezes revoltados pelos cadáveres humanos que jazem nos passeios e nas soleiras das portas. Hoje, quando ia para o restaurante, dei de caras com um homem novo deitado nas pedras do caminho, completamente encharcado. Provavelmente bêbado. Mesmo em frente de um pequeno supermercado. Mesmo ao lado da farmácia e da praça de táxis. Ninguém se importou, ninguém acudiu. Civilizadamente, deixámo-lo ficar ali, à chuva, “a curtir a bebedeira". Civilizadamente, não nos importámos.
Pela primeira vez senti-me mal na minha aldeia. Porque julguei que ela ainda era guardiã de solidariedade.
Nota – O homem que jazia na estrada estava realmente embriagado. E já é habitual andar caído pelos cantos. Já todos, pelos vistos, se conformam com o facto. Desta vez, só o padre, com quem comentei o facto, teve a coragem de cuidar dele.
frbotelho@mail.telepac.pt
