Falsos pressupostos da prática política
I
Ninguém, hoje em dia, questiona a democracia como forma de gerir a coisa pública. A legitimidade da gestão pública reside efectivamente no conjunto dos cidadãos que, por questão de eficácia se organizam num quadro regulamentar tacitamente aceite e entregam a condução do processo a elementos que os representam. A democracia absoluta, onde cada decisão é obtida por consensos maioritários só é possível em grupos restritos e organizações pouco complexas. A complexidade dos problemas e a dificuldade de difusão de informação em grandes grupos e de tomadas de decisão em tempo, leva a que a democracia só seja possível através da representação. Ao nível de grupos organizados, delegamos em representantes nossos a capacidade de implementar as acções necessárias à obtenção dos objectivos escolhidos. Por uma questão de prevenção, periodicamente, aferimos da justeza da sua intervenção, sufragando nos votos não só os projectos para o futuro como igualmente aqueles que lhes deverão dar corpo. É assim que funciona a democracia representativa e ninguém, de boa fé, poderá contestar esta prática. Ela é, efectivamente, o melhor garante da nossa participação numa gestão eficaz da causa pública.
Mas se é claro que a democracia, sem representação, não é praticável, ela gera com facilidade uma total perversão dos princípios que lhe dão origem – o de garantir a participação dos cidadãos nos quais reside, em última instância, o fundamento do poder. Olhando a prática política da nossa democracia representativa, principalmente ao nível do poder local, observamos que os nossos representantes, eleitos periodicamente por maioria, se sentem legitimados não propriamente para “representarem os cidadãos que os elegeram”, mas antes para exercerem ao longo de um mandato,
a sua própria vontade. A legitimidade dos votos dá-lhes a certeza de poderem conduzir os destinos da coisa pública através da sua vontade própria, alheando-se completamente da possível e desejável discussão das decisões e da concretização de consensos. Frequentemente ouvimos, a representantes nossos, a afirmação peremptória de que “o poder não pode cair na rua” e de que “o povo tem sempre a oportunidade de julgar a justeza da intervenção na altura das eleições”.
Infelizmente, esta democracia representativa em que vivemos, já quase só nos deixa a oportunidade de
participarmos no momento das eleições. Aí, a nossa vontade conta. Mas, praticamente, já só conta para legitimar a prática autocrática dos eleitos legitimados.
II
Os partidos políticos, a quem compete criar um corpo de ideias e de objectivos que enquadrem as aspirações e os desejos dos cidadãos, apresentando em cada momento soluções e orientações para as questões públicas, têm vindo a orientar-se, cada vez mais, para um único objectivo –
a obtenção do poder. A tendência pragmática que norteia a nossa sociedade faz com que a obtenção do poder, que deveria ser uma consequência da justeza das ideias e dos propósitos, se transforme no verdadeiro objectivo, passando as ideias e projectos a ser meros instrumentos da conquista do poder.
Não é pois de estranhar que a reflexão e a discussão de ideias seja, ao nível dos grupos políticos, perfeitamente controlada. Não é de estranhar que a grande preocupação dos nossos políticos não sejam as ideias mas sim as
estratégias de obtenção do poder.
Nas últimas eleições para a minha autarquia propus, a um dos grupos políticos em disputa, a realização de fóruns temáticos em que se discutissem as grandes linhas políticas para o concelho, a curto, médio e longo prazo. Depois de um entusiasmo inicial, aguardei a luz verde da comissão política para organizar as sessões. Demorou. Provoquei a resposta e apercebi-me que a ideia não tinha passado. O que ouvi foi para mim esclarecedor – “a ideia é excelente mas essa discussão não é para o partido. Ainda se fosse uma associação cultural, vá lá. O que nós temos é que preparar uma estratégia que nos leve de novo ao poder”.
No meu concelho, nas eleições, não pude votar num corpo de ideias. Tive que votar em pessoas e no crédito maior ou menor que elas me davam de bom senso e de capacidade intelectual. As ideias não estavam lá, mesmo que houvesse uma longa lista de projectos.
No meu país, os partidos não me apresentam também ideias, apenas soluções pontuais para problemas de circunstância.
Raio de pragmatismo!
frbotelho@mail.telepac.pt