Pressões sobre a comunicação social
O apetite dos políticos pelo controle da comunicação social tem vindo frequentemente a lume nos últimos tempos. O caso Marcelo é lido muito mais do que pelos factos ainda não devidamente explicados, por essa crença generalizada na interferência da política nos jornais, rádios e televisões. O equilíbrio entre o poder económico, o poder político e os profissionais do jornalismo é sempre difícil, e frequentemente reparamos que a influência do económico e do político condiciona a liberdade da comunicação.
Não me interessa, aqui, comentar o caso Marcelo. E acho que, por trás de todos os posicionamentos que temos visto nos últimos tempos, está essa certeza permanente – na comunicação social, a política tem declaradas “mãos sujas”.
Muitos de nós têm experiências neste campo. Eu também. Fui director de um jornalzinho publicado quinzenalmente no meu concelho. Lançado no seio de uma associação cultural e na área de influência de um partido político, tentei durante os cerca de dois anos em que o dirigi, imprimir-lhe um carácter profissional e isento. Após um inicial estado de graça, começou a notar-se que não só os mentores do projecto que também o público leitor olhavam para o jornal com desconfiança – era demasiado cultural, não denunciava devidamente os “podres” da terra (obviamente os podres da facção oposta). Não havia, então, pressões, apenas mensagens sibilinas evidenciando o desperdício do trabalho produzido. Pressões, a sério, apenas uma vez. A direcção da associação resolveu explicitar a sua leitura do jornal – ele deveria passar a tratar abertamente a gestão camarária, combatendo o grupo que a detinha e evidenciando os seus defeitos. Resisti à pressão directa colocando o local à disposição, na certeza de que, enquanto mantivesse a direcção, ele manteria íntegra a sua linha editorial. Resisti alguns meses, até que a impossibilidade de garantir a sua produção regular me levaram a deixar a direcção. Seguiram-se anos de combate à gestão camarária – o jornal passou a ser instrumento da (má) luta política, com sucesso pelo visto, já que contribuiu para a mudança do executivo camarário. Hoje, de combativo e malcriado transformou-se em louvaminhas. Parece outro mas continua saudavelmente “instrumento”.
Quem conhece a comunicação social local e regional conhece bem esta realidade controleira. Não é por acaso que, a nível concelhio, existem normalmente dois jornais afectos às facções políticas em confronto. É assim em todo o país, com raras e honrosas excepções. Excepções que não no meu concelho, onde existem dois jornais declaradamente instrumentais das facções partidárias que se confrontam pelo poder. E a sua linha editorial oscila entre a crítica feroz e a subserviência, conforme são oposição ou poder. E o público leitor olha para esta realidade com a naturalidade de quem não vislumbra problema.
Não sei o que se passou, concretamente, com a demissão do professor Marcelo. Mas, independentemente deste caso, não tenho dúvidas que o poder político procura sempre condicionar a comunicação social, colocando-a ao seu serviço e condicionando os críticos. E sejamos honestos – esta é uma realidade inerente ao poder político, seja ele qual for. Resta o quê? Como sempre, a cultura das pessoas, que lhes permite ver claro entre o fumo de despiste. E a difícil interacção dos poderes político, económico e da comunicação social. Na esperança que se equilibrem, o que não parece ser o caso actualmente.
O apetite dos políticos pelo controle da comunicação social tem vindo frequentemente a lume nos últimos tempos. O caso Marcelo é lido muito mais do que pelos factos ainda não devidamente explicados, por essa crença generalizada na interferência da política nos jornais, rádios e televisões. O equilíbrio entre o poder económico, o poder político e os profissionais do jornalismo é sempre difícil, e frequentemente reparamos que a influência do económico e do político condiciona a liberdade da comunicação.
Não me interessa, aqui, comentar o caso Marcelo. E acho que, por trás de todos os posicionamentos que temos visto nos últimos tempos, está essa certeza permanente – na comunicação social, a política tem declaradas “mãos sujas”.
Muitos de nós têm experiências neste campo. Eu também. Fui director de um jornalzinho publicado quinzenalmente no meu concelho. Lançado no seio de uma associação cultural e na área de influência de um partido político, tentei durante os cerca de dois anos em que o dirigi, imprimir-lhe um carácter profissional e isento. Após um inicial estado de graça, começou a notar-se que não só os mentores do projecto que também o público leitor olhavam para o jornal com desconfiança – era demasiado cultural, não denunciava devidamente os “podres” da terra (obviamente os podres da facção oposta). Não havia, então, pressões, apenas mensagens sibilinas evidenciando o desperdício do trabalho produzido. Pressões, a sério, apenas uma vez. A direcção da associação resolveu explicitar a sua leitura do jornal – ele deveria passar a tratar abertamente a gestão camarária, combatendo o grupo que a detinha e evidenciando os seus defeitos. Resisti à pressão directa colocando o local à disposição, na certeza de que, enquanto mantivesse a direcção, ele manteria íntegra a sua linha editorial. Resisti alguns meses, até que a impossibilidade de garantir a sua produção regular me levaram a deixar a direcção. Seguiram-se anos de combate à gestão camarária – o jornal passou a ser instrumento da (má) luta política, com sucesso pelo visto, já que contribuiu para a mudança do executivo camarário. Hoje, de combativo e malcriado transformou-se em louvaminhas. Parece outro mas continua saudavelmente “instrumento”.
Quem conhece a comunicação social local e regional conhece bem esta realidade controleira. Não é por acaso que, a nível concelhio, existem normalmente dois jornais afectos às facções políticas em confronto. É assim em todo o país, com raras e honrosas excepções. Excepções que não no meu concelho, onde existem dois jornais declaradamente instrumentais das facções partidárias que se confrontam pelo poder. E a sua linha editorial oscila entre a crítica feroz e a subserviência, conforme são oposição ou poder. E o público leitor olha para esta realidade com a naturalidade de quem não vislumbra problema.
Não sei o que se passou, concretamente, com a demissão do professor Marcelo. Mas, independentemente deste caso, não tenho dúvidas que o poder político procura sempre condicionar a comunicação social, colocando-a ao seu serviço e condicionando os críticos. E sejamos honestos – esta é uma realidade inerente ao poder político, seja ele qual for. Resta o quê? Como sempre, a cultura das pessoas, que lhes permite ver claro entre o fumo de despiste. E a difícil interacção dos poderes político, económico e da comunicação social. Na esperança que se equilibrem, o que não parece ser o caso actualmente.
