Voando sobre a realidade

01/11/2004

Reencontro com Pedro Ferro

Pedro Ferro foi jornalista. Lisboeta de nascimento mas alentejano do coração. Licenciado em História foi sobretudo jornalista. Passeou a sua escrita por diversos jornais. Diário do Alentejo, O Imenso Sul e o Público são marcas da sua carreira. Morreu em 1999, com 40 anos feitos.

Quase conheci o Pedro Ferro. Estive com ele duas vezes, era ele editor do Fórum Público. Duma das vezes a conversa resvalou para o mundo rural e para os valores que ele encerra. Falámos do interesse e da necessidade de divulgar, junto da opinião pública, o segredo dessas almas imensas que povoam o interior do nosso país. Quero acreditar que ambos nos sentimos próximos, quase íntimos.
Passaram quinze dias e recebi dele um telefonema. Queria falar comigo mais longamente. E contou-me de um projecto que acalentava, o de lançar uma revista dedicada ao mundo rural. Tinha os contactos em Lisboa e queria contar comigo. Disponibilizei-me para almoçarmos, melhor, para jantarmos já que estava certo da demasia do tempo. Ficou de me telefonar a marcar o jantar. Menos de 15 dias passados soube que morrera.
Quase conheci o Pedro Ferro. Transporto há cinco anos esta sensação estranha e a impressão de que o destino interrompeu uma grande amizade. O projecto que o Pedro Ferro tinha nunca foi realizado. Ainda hoje seria oportuno. Mas só ele o poderia fazer.

Há tempos, no Alentejo, deram-me uma edição póstuma do Pedro Ferro, que leva o título de “Artesão do Efémero”. Quem mo deu, justificou a oferta dizendo: “Estou convencida que o Francisco vai gostar”. Ainda não lhe disse, mas foi dos gestos mais significativos dos últimos tempos. Foi como se eu pudesse voltar ao convívio do Pedro Ferro, foi como se pudesse reatar o tempo, descobrindo a escrita brilhante, a cultura profunda e a sensibilidade imensa de um homem que quase conheci mas que hoje sei, já faz parte de mim.

Em homenagem ao Pedro, quero deixar aqui alguns excertos das coisas lindas que tenho vindo lendo:

Esta é a poesia dos que dos versos não sabem a métrica. Os homens da terra, da vida dura e passado de fomes e humilhações. Dos que nunca viram sonetos da sua relação com os campos. E também dos que, abrindo a porta da casa para ir para o banco ou para a repartição, dão consigo a perder-se numa planura. É uma poesia brutal mas não grosseira. O alentejano sabe como ninguém envolver com um poema a maior brutalidade, sem jamais resvalar para a pilhéria malcriada e mal intencionada. O alentejano não diz palavrões. Fala por metáforas. Vá-se lá saber porquê. Coisas talvez do Sol. E do Sul.”
Crónica do Público de 20-06-94

A fé do Alentejo está no barro da criação. É primitiva e animal. Resiste a tudo que tente tirar um homem à sua particular solidão. Essa solidão tão funda e particular que nela cada homem é Deus. Mas, na “revolta de anjo caído”, como Florbela disse, cada alentejano continua a debater-se na procura do tal Deus universal e justo, com a fé de quem o há-de encontrar um dia. Nem que seja para o mandar passear logo a seguir.”
Crónica do Público de 04-09-93

O canto no Alentejo fica no lado de lá do folclore. Porque o Alentejo não canta com sentido de cantar: o Alentejo diz. E põe alaúdes na voz para dizer.
Fá-lo ao anoitecer. Quando as sombras envolvem o canto como naves de catedral
.”
Crónica do Público de 13-10-94

Um poeta e um humorista. A crónica que publicou no Público em 30 de Outubro de 1992 chama-se “Histórias marginais”. Nunca tinha lido um encadeado tão perfeito sobre a ironia popular alentejana. Onde se fala dos fios eléctricos de Baleizão, que estavam tão altos que não davam para estender a roupa. Ou da praia da Messejana, surgida de promessa eleitoral. Ou da história de “larga o osso” atribuída aos da Vidigueira, por não terem entregue as ossadas de Vasco da Gama aos lisboetas que os tinham vindo buscar. Ou do relógio de Aguiar, para quem todos contribuíram tendo recebido, em vez do relógio, um caixote recheado de cornos. Ou da ponte de Santa Vitória, onde não há rio – “façam lá a ponte, que do rio tratamos nós”, reivindicavam os naturais. E sobre o comboio de Cuba, diz Pedro Ferro nessa crónica:
O calcanhar de Aquiles de Cuba, distrito de Beja, é o comboio. Conta-se que no dia em que, pela primeira vez, o comboio cruzou a vila – um velho comboio a vapor – os de Cuba acorreram a tapá-lo com uma manta porque o “bicho vinha suado”.

É leitura como esta que me tem deliciado nos últimos tempos. É com ela que vou descobrindo um homem que quase conheci. É através dela que estou a perceber que a vida, às vezes, brinca connosco. Aproximando-nos e afastando-nos a seu bel-prazer. Mas é um privilégio poder recuperar o passado, mesmo naquilo que ele não chegou a ser. Lá, onde quer que estejas, Pedro Ferro, talvez saibas que, dum encontro efémero nasceu respeito, admiração e uma grande, grande amizade.

Nota: “Artesão do Efémero” é uma edição de Imagem Imenso, Lda com sede na Av. Humberto Delgado, 55, 7780-123 CASTRO VERDE.