Voando sobre a realidade

20/06/2005

E agora, Europa?

1. A cimeira europeia da última semana foi um total fracasso. Embora todos tenham reconhecido o fracasso na não aprovação do orçamento para 2007-2013, engalanaram em arco na decisão sobre o Tratado Europeu. E, no meu entender, a decisão sobre este ponto é ainda mais preocupante que a do Orçamento. Senão vejamos…
2. Decidir parar para pensar não significa nada. Significa apenas dar justificação para que o processo de ratificação em curso não tenha sequência. Salvando assim um problema insolúvel – dar a possibilidade de os povos europeus se exprimirem sobre uma solução inviabilizada à partida pelos não da França e da Holanda. O problema de fundo, ninguém o colocou. Este Tratado é reconvertível? Como fazê-lo integrando a participação e a representatividade de TODOS os europeus? Ou será que este Tratado deve ser totalmente abandonado para se estabelecer um novo partindo de pressupostos globalmente aceites? Como discutir estas questões? Em que momento?
Nada foi decidido pelos “senhores” da Europa. Apenas parar para pensar. Pensar o quê? Até quando?
3. A decisão dos “trocos” (discussão de mercearia como alguns lhe chamaram) gorou-se. Com os países a exigirem mais benefícios, designadamente os inerentes ao alargamento, haveria que aumentar a receita. Os países mais ricos – e onde a generosidade e benevolência cada vez mais atraem detractores – pura e simplesmente decidiram contribuir com menos. Com menor receita não é possível maior despesa. Por mais que se “corte e cosa”, nada feito… O fracasso era evidente.
4. A ideia da coesão a nível europeu implica a dádiva de uns em benefício de outros. E a coesão é essencial à construção da Europa e dos seus ideais de paz e de justiça social. Mas o que a Cimeira do Luxemburgo deixou bem patente é que o pensamento dos dirigentes políticos está muito mais preocupado com o que se passa nas suas próprias fronteiras do que na Europa. Em fim de ciclo político na França, na Alemanha, na Itália e até no Reino Unido, não é de esperar que estes países arrisquem a ideia europeia.
5. Ficaremos, provavelmente, reféns das mudanças políticas dos grandes da Europa. Antes de Setembro e das eleições alemãs, não será este país a fornecer soluções. E a Alemanha, como maior contribuinte, é essencial.
Com uma presidência francesa frágil, na corda bamba, dificilmente se poderá avançar numa discussão séria da estrutura orçamental europeia, que consagra mais de 40% do orçamento à agricultura.
Ficará, dentro de dias, o sr. Blair com a difícil tarefa de reiniciar o trabalho e a discussão. E o sr. Blair, mesmo que não se goste, é o único que tem uma ideia para a Europa. Mas será que a Europa gosta da ideia do sr. Blair?
6. Provavelmente passaremos por um longo período de “faz que não faz”. Temos o Tratado de Nice, temos o mercado comum, temos o Euro. Deixemos a máquina na sua rotina à espera de melhores e mais inspirados dias. Não fazer nada não cria atritos. Mas também não resolve os problemas…
7. Não tenho dúvidas que se aproximam dias negros na Europa. Não tenho dúvidas do lento arrastar da máquina na indecisão de assumir os problemas. Provavelmente só em 2006 se começarão a apontar soluções, muitas delas pressionadas pela gestão corrente. Mas duvido que se dêem passos significativos na construção da Europa nos próximos cinco a dez anos. A não ser que o sangue novo, introduzido pelos dez países do alargamento, produza o seu efeito. No Luxemburgo foram eles os únicos a darem mostras de generosidade aceitando diminuir as suas quotas do orçamento. Eles que mostraram estar melhor preparados para uma ideia de um colectivo europeu solidário. E não é por acaso que é a Polónia a propor, esta semana, a realização de uma Cimeira Europeia para discutir a Europa.
8. Uma paz podre, que não enfrente os problemas, não serve a ninguém. A consciência dos problemas é uma oportunidade única para envolver todos na discussão e na busca de soluções. Será que temos a vitalidade suficiente para conseguir isto?