Voando sobre a realidade

24/06/2005

Lucidez e marginalidade
A propósito das eleições autárquicas

Quando andava no Liceu, aí pelo sexto ano, tive um colega de uma lucidez doentia. Via, para além dos gestos usuais e mecânicos, descortinava lógicas incompreensíveis para nós. Habituei-me a conversar com ele, mesmo correndo o risco de não conseguir, muitas vezes, moderar as suas ansiedades e revoltas. Lembro-me, vivamente, de num intervalo de aulas, depois do toque da sineta, os alunos se precipitarem para as escadas, em correria, como sempre era habitual. Ele agarrou-me no braço, puxou-me de lado e chamou-me à atenção: “olha com atenção, parecem um rebanho de carneiros com o cão à perna”. E deixou-se ficar para depois subir as escadas pausadamente, magestaticamente.
Perdi o rasto desse colega mas constou-me que enlouqueceu. O risco entre a lucidez e a loucura é sempre muito ténue ou, pelo menos, a sociedade fá-lo sempre muito ténue. A lucidez questiona, incomoda e a tendência é fazê-la marginal.

Muitos anos depois, dou comigo a sentir-me como esse meu antigo colega – lúcido e marginal. Pretensão, dirão vocês. Separemos então os factos da percepção de lucidez.

Em determinadas situações contemplo-me a ver para além das pessoas que me envolvem. A ter razão antes do tempo. A anteceder a evolução das coisas. Circunscrevamo-nos à política local (mas podemos fazer a extrapolação para a nacional, porque não?). Estamos em período de definição de candidaturas ao poder autárquico. Num processo democrático que deverá conduzir à eleição de representantes para gerirem os destinos dos municípios por um período de quatro anos. Não é caso de somenos – os municípios, mesmo pequenos como o meu, têm um papel fundamental na vida das pessoas e gerem orçamentos da ordem dos 8 / 10 milhões de euros por ano. Em termos de democracia e de participação local aproxima-se, pois, um momento crucial, patente no evidente nervosismo que antecede decisões e escolhas.

Pensaria eu, na minha lucidez, que esta era a altura adequada para construir e lutar por aspectos essenciais. Primeiro, por um projecto político adequado. Segundo por protagonistas competentes, honestos e eficazes. Depois por esclarecimento e transparência face aos eleitores. Finalmente por estratégias sérias de conquista do poder.
A ordem por que coloco aqui as prioridades é essencial – não é ingenuamente que coloco em primeiro lugar o projecto político e em último a conquista do poder – é porque o essencial é o projecto político, a conquista do poder só deve ser uma sequência natural da justeza dos elementos anteriores.
“Conversa, dizem-me todos. O importante, meu caro, é ganharmos a Câmara. Depois se vê.” E é este raciocínio que subverte tudo. Porque remete a democracia para a mera contagem de votos. E contar votos, nesta fase, significa tão só agradar a famílias numerosas, a empresários empregadores, a líderes de opinião locais. Sem escrúpulos para com as ideias do projecto político ou com a qualidade dos seus protagonistas – as escolhas fazem-se, apenas, pela percepção de votos que os protagonistas transportam nesta saga eleitoral.
E eu continuo a pugnar por um projecto político que defina a estratégia a curto, médio e longo prazo para o território do concelho. Um projecto que seja moderno e ambicioso e que possa mobilizar o número mais abrangente dos habitantes do concelho.
E eu continuo a pugnar por protagonistas competentes. Com formação abrangente, com conhecimento do mundo, com espírito moderno. Gestores eficientes – sempre serão responsáveis pela gestão de uma máquina com centenas de trabalhadores e milhões de investimento. Com sensibilidade e, sobretudo, com espírito democrático. Protagonistas que possam assumir competentemente o serviço público. E não servirem-se competentemente do público.
E eu continuo a acreditar que este é o caminho mais lúcido. E que não é, necessariamente, um caminho de derrota. Que um projecto político sério, competente e não contemporizador com os “pequenos poderes” locais é possível e mobilizador. É óbvio!

Mas é óbvio para a minha lucidez. Lucidez que, também neste processo, me arrasta à marginalidade. À loucura espero que não. Mas que nos resta quando ficamos isolados no meio da multidão, com a certeza de que não podemos ir por ali já que, mesmo contra todos, temos razão?