Voando sobre a realidade

14/06/2005

OBRIGADO EUGÉNIO

NÃO SEI
Não sei porque diabo escolheste
janeiro para morrer: a terra
está tão fria.
É muito tarde para as lentas
narrativas do coração,
o vento continua
a tarefa das folhas:
cobre o chão de esquecimento.
Eu sei: tu querias durar.
Pelo menos durar tanto como o tronco
da oliveira que teu avô
tinha no quintal. Paciência,
querido, também Mozart morreu.
Só a morte é imortal.

Eugénio de Andrade, "O sal da língua"

Pois, Eugénio, não morreste em Janeiro.
Mas é certo que vais durar. Porque a poesia, a tua poesia, mais do que a morte, é imortal.

1 Comments:

  • E porque não mudar o "adeus" ao Eugénio de andrade para um "Até já"


    Até já.

    Ainda não gastámos as palavras pela rua, meu amor,

    e o que nos ficou chega

    para afastar o frio de quatro paredes.

    Não gastámos nada nem sequer o silêncio.

    Não gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

    Não gastámos as mãos apesar da força com que as apertamos,

    Não gastámos o relógio nem as pedras das esquinas

    Apesar de tantas esperas inúteis.

    Antigamente metia as mãos nas algibeiras e não encontrava nada;

    mas agora temos tanto para dar um ao outro;

    é como se todas as coisas fossem minhas:

    quanto mais te dou mais tenho para te dar.

    Às vezes tu dizes: os teus olhos são peixes verdes.

    E eu acredito.

    Acredito,

    porque ao teu lado

    todas as coisas são possíveis.

    Dantes os meus olhos eram apenas os meus olhos.

    Era pouco mas era verdade,

    uns olhos como todos os outros.

    Agora é o tempo dos segredos,

    o tempo em que o teu corpo é um aquário,

    o tempo em que os meus olhos

    são realmente peixes verdes.



    Não gastámos as palavras.

    Quando dantes dizia: meu amor,

    não se passava absolutamente nada.

    E no entanto, agora, antes das palavras gastas,

    tenho a certeza

    de que todas as coisas estremecem

    só de murmurar o teu nome

    no silêncio do meu coração.



    Temos ainda tanto para dar.

    Dentro de ti

    Tudo me pede água.

    O passado é inútil como um trapo.

    E já te disse: as palavras não estão gastas.



    Até já.


    ASS: óh Génio

    By Anonymous Anónimo, at 11:36 AM  

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