OBRIGADO EUGÉNIO
NÃO SEI
Não sei porque diabo escolheste
janeiro para morrer: a terra
está tão fria.
É muito tarde para as lentas
narrativas do coração,
o vento continua
a tarefa das folhas:
cobre o chão de esquecimento.
Eu sei: tu querias durar.
Pelo menos durar tanto como o tronco
da oliveira que teu avô
tinha no quintal. Paciência,
querido, também Mozart morreu.
Só a morte é imortal.
Eugénio de Andrade, "O sal da língua"
Pois, Eugénio, não morreste em Janeiro.
Mas é certo que vais durar. Porque a poesia, a tua poesia, mais do que a morte, é imortal.
NÃO SEI
Não sei porque diabo escolheste
janeiro para morrer: a terra
está tão fria.
É muito tarde para as lentas
narrativas do coração,
o vento continua
a tarefa das folhas:
cobre o chão de esquecimento.
Eu sei: tu querias durar.
Pelo menos durar tanto como o tronco
da oliveira que teu avô
tinha no quintal. Paciência,
querido, também Mozart morreu.
Só a morte é imortal.
Eugénio de Andrade, "O sal da língua"
Pois, Eugénio, não morreste em Janeiro.
Mas é certo que vais durar. Porque a poesia, a tua poesia, mais do que a morte, é imortal.

1 Comments:
E porque não mudar o "adeus" ao Eugénio de andrade para um "Até já"
Até já.
Ainda não gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Não gastámos nada nem sequer o silêncio.
Não gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
Não gastámos as mãos apesar da força com que as apertamos,
Não gastámos o relógio nem as pedras das esquinas
Apesar de tantas esperas inúteis.
Antigamente metia as mãos nas algibeiras e não encontrava nada;
mas agora temos tanto para dar um ao outro;
é como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dou mais tenho para te dar.
Às vezes tu dizes: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acredito.
Acredito,
porque ao teu lado
todas as coisas são possíveis.
Dantes os meus olhos eram apenas os meus olhos.
Era pouco mas era verdade,
uns olhos como todos os outros.
Agora é o tempo dos segredos,
o tempo em que o teu corpo é um aquário,
o tempo em que os meus olhos
são realmente peixes verdes.
Não gastámos as palavras.
Quando dantes dizia: meu amor,
não se passava absolutamente nada.
E no entanto, agora, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremecem
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Temos ainda tanto para dar.
Dentro de ti
Tudo me pede água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras não estão gastas.
Até já.
ASS: óh Génio
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Anónimo, at 11:36 AM
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