Voando sobre a realidade

01/06/2005

Somos todos europeus?

1. O recente referendo ao Tratado Constitucional Europeu em França transformou-se num perigoso rastilho. O afirmativo não francês deixa-nos a nós portugueses, que nunca pensámos ou questionámos a Europa, perplexos. Afinal, o não francês vem colocar-nos perante os olhos a possibilidade de contestar a Europa – coisa que não nos atrevíamos a fazer, mesmo quando discordávamos.
Coincidindo com o período de negociação do orçamento comunitário para o período 2007-2013 e com as notícias de que Portugal deverá ser significativamente prejudicado na transferência de fundos, o não francês pode despertar secretas liberdades lusas.
Seremos nós, afinal, todos europeus?

2. Sendo obviamente europeu, nunca me senti como tal. Pensando no referendo francês, lembrei-me que há anos, no Canadá, contestei o facto de me considerarem, numa reunião, de europeu. E dei comigo a referir que não, que era português. Um verdadeiro português, do norte, de Ribeira de Pena.
Claro que sendo de Ribeira de Pena, de Portugal, sou também europeu, geograficamente falando. Mas quanto a identidades, estamos conversados. Será que alguém, em Portugal, se sente realmente europeu? Será que alguém admite identificar-se perante outros através desta identidade? Será que alguém, para além da afirmação continental, consegue definir a identidade europeia? Mesmo com euros no bolso, seremos capazes de nos afirmar como europeus?

3. A Europa entrou-nos pela casa dentro através do dinheiro. Não apenas do Euro, muito mais do fluxo generoso dos fundos comunitários que nos permitiram sonhar com a abundância. A Europa apontou-se-nos como o caminho da prosperidade que vislumbrámos nos outros. A Europa foi para nós a galinha dos ovos de ouro que nunca ousámos contestar. Desde que pusesse…
Com o tempo descobrimos também que a Europa era a norma e a regra que se nos impunha. Reguladora muitas vezes. Estúpida não poucas. Prepotente quase sempre. Irritante.
Como irritante era muitas vezes a máquina burocrática montada pela Europa, ditadora por sobre as vontades nacionais.
Faz sentido falar em democracia e em participação na Europa. Será que os responsáveis europeus – políticos e técnicos comunitários – tirarão a lição de que para todos nos sentirmos europeus teremos que ser chamados a participar? Que as decisões têm que ter muito mais em linha de conta os 400 milhões de cidadãos que meteram no mesmo barco?
Mas será que é possível construir uma Europa para lá do interesse? Económico, social ou cultural? Será possível construir uma identidade europeia por cima de 25 países? E de 19 línguas? E de não sei quantas dezenas de culturas? Construir uma unidade através de tamanha diversidade?
Sonhar que é possível continuar esta vertigem de somar diversidades?
Seremos alguma vez, assumidamente, todos europeus?

4. Conheci, em Bruxelas, alguns cidadãos verdadeiramente europeus. Uns funcionários da Comissão, outros tradutores. Falam todos, mais ou menos fluentemente, várias línguas. São frequentemente casados com cidadãos de países diferentes. Levam os filhos diariamente ao colégio frequentado por crianças de todas as nacionalidades, falando todas as línguas. Compram nos supermercados produtos de todos os países. E sentem-se donos do mundo.
Quando se lhes pergunta donde são, dizem afirmativamente que são europeus. Europeus de verdade.
Raízes já não têm. Já não são portugueses, italianos, franceses ou ingleses. Apenas europeus.
Já recebi alguns em Portugal. E aqui sentiram-se estrangeiros.

5. Seremos afinal todos europeus?
Eu, pessoalmente, continuarei a ser português. Mesmo que aceite e protagonize um projecto europeu, que eu sinta poder participar.

2 Comments:

  • Eu gostei muito de ler o seu artigo, até porque é uma visão diferente da que tenho lido até agora. No processo dos últimos dias há dois dados objectivos: A França e a Holanda votaram não ao Tratado Constitucional! É um sinal, é um dado inalterável, o que fazer? De que vale estar a discutir este tratado constitucional, ele, enquanto tal está morto. A Europa vive, tem que viver, o nosso desenvolvimento, o nosso crescimento económico está dependente disso, mas nós (Portugal) somos uma gota no Oceano. Repensar política e culturalmente a Europa é a obrigação que resulta do "Não" Francês. Dizer que é preciso seguir, como se nada tivesse acontecido é uma enorme imprudência. Porque se para os portugueses a Europa é a mais das vezes o local onde vamos buscar milhões de euros, para os Franceses a Europa será um local para a introdução dos seus produtos e na pior das hipóteses um perigo para a sua visão de Estado social (daí o "não" dos franceses). Para poucos a Europa é um espaço de cooperação e parceria, na verdade o espírito europeu que existe não permite a chegada do federalismo e a criação do tal super Estado Europeu. O espírito europeu precisa de ser amadurecido, cada estado tinha obrigação de já o ter feito. Olhe-se para Portugal, perguntem ao português médio o que é a Europa para eles. O espírito europeu herdado de Schuman e Monet tem que ser contextualizado, não digo que ele tenha desvanecido, mas o tal Projecto comum europeu, não é o mesmo, o projecto comum europeu está cansado e esgotado, é tempo de repensar, o projecto europa faz todo o sentido, mas nada deve ser imposto .
    A Europa, a ideia de Europa nasce do pós guerra, mas hoje, pouco interessa aos cidadãos europeus a paz, a paz “não enche barriga” . O que nos une? O que nos une numa Europa assente num modelo social falido? Economias como a portuguesa beneficiaram imenso dos fundos comunitários, aqui gastamos e passamos a factura aos alemães e aos franceses. A verdade é que para eles, para consumo interno, torna-se díficil explicar esta Europa, onde eles pagam e nós gastamos. É claro que a Constituição é um detalhe. É uma pequena grande desculpa. Porque ninguém leu a constituição, porque é um texto enorme e aborrecido, porque quer simplificar e não o faz, porque tenta unir o que não está preparado para a união ( Ex: criação de um ministro das relações exteriores, como na Europa existisse uma única política externa). O que é inaceitável é aceitar que a Europa passe a ser o bode expiatório dos males internos.
    Para mim é claro, o referendo permite que repensemos todo o projecto europeu, a europa não pode continuar a ser construída sobre o jogo do toma lá dá cá. Acabo com as palavras do João Pereira Coutinho:

    “Mas também é possível --e mais sensato-- permitir, de uma vez por todas, que a Europa seja livre para decidir o seu destino. E que cada país possa escolher diferentes níveis de integração --económica, política, até federal-- de acordo com os seus interesses. Uma Europa a várias velocidades não me assusta nem horroriza. O que assusta e horroriza é a tentação burocrática e tecnocrática de enfiar tudo no mesmo saco e seguir em frente de olhos bem fechados. Esta arrogância fatal será, a prazo, o fim da Europa. E, ironia trágica, o regresso da barbárie que a Europa procurou evitar.”
    Para mim, a Europa enquanto potência económica faz todo o sentido, repensemos os nossos modelos sociais, mas ser europeu não é abdicar da nossa portugalidade.

    Ass: Valério d'Estranho

    By Anonymous Anónimo, at 3:41 PM  

  • Alegre surpresa tive ao visitar este blog.Opiniões pertinentes , sensiveis ,pensadas, vividas e inteligentes.
    Bem...eu cá do Brasil, América latina digo-vos: União Europeia, Otan, Merco-Sul são respostas as necessidades economicas deu ma tal Globalização; e, esta não respeita as culturas regionais, nacionais.Daí os questionamentos levantados, percebidos pelos comentários neste blog publicados.
    Foi um prazer ter estado aqui.
    Beatriz Abrantes

    By Anonymous Beatriz Abrantes, at 7:45 PM  

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