Voando sobre a realidade

07/07/2005

Dignidade

Londres viveu hoje momentos de horror.
O mundo confrontou-se hoje, uma vez mais, com o horror do terrorismo.

Os ingleses são um povo especial. Bem sei que têm a experiência do horror. Primeiro a guerra e os ataques das bombas alemãs. Depois as acções do IRA. Mas o comportamento de hoje, no meio do horror, não se justifica apenas pela experiência. Temos que buscar a raiz noutros elementos.
Na educação.
Na discrição.
Sobretudo, na dignidade!

No meio do horror, o mundo não viu o caos. No meio do horror, não houve a exploração da dor. No meio do horror, só se vislumbraram as lágrimas.
Recordo como imagens de marca um jovem a ser levantado por dois paramédicos. Contido, sofredor. Digno.
Recordo um homem de cara ensanguentada descrevendo com lucidez os momentos por que passou. Nem uma palavra sobre ele. Digno.
Vejo uma mulher jovem, de cara enfarruscada, comentar a sorte de nada ter sofrido. Digna.
Recordo um homem de voz embargada calar-se de repente na imagem do horror. Digno.
Só vi imagens contidas. Imagens de coragem. Imagens de determinação. E em todos os canais televisivos a que tive acesso, não vi mais do que imagens distantes dos trabalhos de socorro e as mesmas imagens de dignidade. Comenta-se que a comunicação social tomou a decisão de não explorar o horror.

Eu dobro-me com respeito pela memória dos mortos e pelo sofrimento dos feridos. E sinto-me reconhecido pela coragem e, sobretudo, pela dignidade assumida perante a tragédia.